quinta-feira, 12 de julho de 2012

Overtraining - o Super Treinamento


OVERTRAINING - O SUPER TREINAMENTO

Alex Giacominni, Édson da Silva Rezende, suelen cequinel moraes, andré bellin mariano

Resumo

Overtraining ou supertreinamento é um desequilíbrio entre recuperação e estresse, que acomete principalmente atletas de elite. Sintomas que antecedem o overtraining, chamados de overraching devem ser identificados prevenindo complicações mais graves. Dentre os principais sintomas do overtraining podemos descrever apatia geral, decréscimo da auto estima, instabilidade emocional, diminuição do desempenho e aumento da susceptibilidade a infecções. Os marcadores encontrados são alterações físicas, fisiológicas ou características psicológicas. O Biomédico é um profissional com grande capacidade de atuar na prevenção, no diagnóstico e controle do overtraining, sendo este um profissional generalista e multidisciplinar cada vez mais inserido no mercado de trabalho devido suas diversas ferramentas de atuação e desempenho, estando apto a atuar na área esportiva.

PALAVRAS-CHAVE: Overtraining, Overraching, Biomédico, Atletas de Elite.

ABSTRACT

Overtraining is a disequilibrium between recovery and stress, affecting elite athlete mainly. Symptoms that precede overtraining, called overreaching must be identified preventing more serious complications. Amongst the main symptoms of overtraining we can describe general apathy, decrease of the auto one esteem, emotional instability reduction of the performance and increase of the susceptibility the infections. The joined markers are physical, physiological alterations or of the psychological characteristics. The Biomedical is a professional with a great capacity to act in prevention, diagnosis and control of overtraining, which is a professional generalist and multidisciplinary increasingly entered the market work because of its diverse expertise and performance tools, being able to work in the field sports.

KEY-WORDS: Overtraining, Overraching, Biomedical, Elite Athlete.

            1. INTRODUÇÃO

O treinamento esportivo tem como objetivo aumentar e melhorar o desempenho físico. No entanto quando um treinamento é caracterizado como excessivo e prolongado sendo aplicado simultaneamente a uma inadequada recuperação, muitas alterações fisiológicas consideradas positivas associadas com o treinamento físico são revertidas ao supertreinamento (ST) (Alves et al., 2006).
Segundo Lehmann et al. (1998), o ST (overtraining) pode ser definido como um desequilíbrio entre estresse e recuperação, ou seja, grandes fatores estressantes com pouca recuperação. O overreaching é considerado um ST a curto prazo e deve pode ser identificado antes do overtraining.
Embora a síndrome do ST seja notada em atletas de elite, o ST é também um problema em outros níveis de participação. Esta síndrome tornou-se um problema significativo no esporte de alto nível, abreviando carreiras promissoras (Alencar et al., 2010).
Os marcadores do ST são definidos como as alterações físicas, fisiológicas ou características psicológicas associadas a este e aos estímulos que procedem ou acompanham o aparecimento da síndrome do ST atual, conseqüentemente, algumas dessas alterações fisiológicas, bioquímicas e imunológicas comumente associadas ao treinamento pesado tem sido propostas como potenciais marcadores do ST (Cunha et al., 2006).
Em suma, o presente artigo de revisão de literatura tem como objetivo descrever a síndrome do overtraining, seus tipos, sinais, sintomas, principais marcadores e como prevenir o supertreinamento.

           2. OVERTRAINING

O overtraining ou ST é uma condição complexa, caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas, em reposta a um planejamento inadequado do treinamento esportivo. Esta síndrome é frequentemente encontrada em atletas que cumprem um programa de treinamento mal planejado, caracterizado por grandes volumes e/ou altas intensidade, sem um período de recuperação adequado. Além disso, fatores de estresse podem ser encontrados em situações do treinamento e da competição, mas também naquelas relacionadas à extra treinamento e extra competição. Por sua vez, os atletas, na tentativa de alcançar altos níveis de desempenho com o treinamento podem tornar-se excessivamente treinados, apresentando sinais e sintomas do ST como mostra a Figura 1 (Nakamoto, 2005).
No overtraining os atletas encontram-se num platô crônico de desempenho que não pode ser influenciado positivamente por pequenos períodos de descanso e recuperação, este fator ainda é o padrão ouro para detecção do overtraining (Rogero et al., 2011; Alencar et al., 2010).


Figura 1 - Síndrome do Overtraining - Relação desempenho e volume e intensidade de treinamento (adaptado de Alencar et al., 2010).

Além do treinamento excessivo sem recuperação necessária, outros fatores podem predispor o individuo a síndrome, como o grande número de competições, a monotonia do treinamento, as condições médicas pré-existentes, a nutrição inadequada frente à carga de treinamento, os fatores ambientais, tais como, altitude, temperatura e umidade, e ainda a falta de orientação de um profissional para a prática de atividade física (Freitas et al., 2009).
A incidência do ST no esporte varia de acordo com a modalidade, sendo que esportes que envolvem grandes cargas de treinamento freqüentemente demonstram maior número de resultados negativos. Segundo Alves et al. (2006), na Olimpíada de Atlanta, 1996, investigações realizadas entre 296 atletas de 30 diferentes esportes mostraram que 84 deles estiveram em um estado de ST e que este explicava a queda de seus desempenhos.

2.1 Overraching

Overrraching é o ST a curto prazo, sendo descrito como ácumulo de estresse intrínsico e extrínsico ao treinamento, que resultam em diminuição de curto prazo do desempenho com ou sem sinais e sintomas fisiologicos e psicologicos em que a restauração do desempenho pode levar de vários dias a algumas semanas (Alencar et al., 2010).

2.2 Tipos de overtraining

De acordo com Israel (1976) existem dois tipos de síndrome de ST, a do tipo simpático e a do tipo parassimpático. Lehmann (1999) reporta que o tipo parassimpático, que é caracterizado pela predominância do tônus vagal ou por insuficiência adrenal é mais freqüente que o tipo simpático, que mimetiza um estado hiperadrenérgico ou hiperfunção da tireóide.
Os sintomas principais da síndrome do ST são cansaço e excitação (forma simpática) ou inibição e depressão (forma parassimpática). Independente das formas ocorre diminuição do desempenho. A forma simpática é rara e quando encontrada, está presente em esportes de característica anaeróbica que requerem atividades como corridas de curta distância, saltos e arremessos (Samulski et al., 2005).
A forma parassimpática é tipicamente encontrada em esportes aeróbicos como corridas de longa distância, natação, ciclismo de estrada, ou seja, atletas de endurance (Samulski et al., 2005).

2.3 Marcadores, sinais e sintomas

 Na tabela 1 estão descritos os principais marcadores, os sinais e os sintomas que os atletas com supertreinamento poderão desenvolver ao longo do ST.

Tabela 1. Marcadores, Sinais e Sintomas do Overtraining (adaptado de Alves, 2006).

De um modo geral os principais sintomas do overtraining são sentimentos de depressão, apatia geral, decréscimo da auto estima, instabilidade emocional, diminuição do desempenho, perda da capacidade de super compensação, cansaço, irritabilidade, distúrbios de sono, perda de peso e apetite, aumento da freqüência cardíaca, aumento da vulnerabilidade a lesões, e alterações hormonais. Um importante aspecto clínico da síndrome de ST é o aumento da susceptibilidade a infecções (Ackel, 2003; Oliveira 2011).

2.5 Diagnóstico e monitoramento

         Apesar de o overtraining ter sido descoberto em 1970, o diagnóstico deste é muito complicado, não existe ainda, nenhum critério exato, geralmente os médicos e treinadores tendem a buscar outras doenças antes que a confirmação seja feita. Sendo que o ideal para um atleta seria descobrir ainda no estado de overraching uma vez que a recuperação é mais rápida, do que um atleta que já apresenta overtraining (Paiva, 2005).
O monitoramento deve ocorrer considerando as variáveis fisiológicas, psicológicas, imunológicas e bioquímicas de cada atleta, isoladamente. A freqüência cardíaca, o hemograma (realizado a cada três ou quatro meses) e o questionário psicométrico, são variáveis práticas que podem ser utilizadas para acompanhar o atleta em um período de treinamento. A freqüência cardíaca pode mensurar a resposta não adaptativa do corpo à demanda do treinamento e por este motivo é fundamental que o atleta de alto nível estabeleça uma rotina para acompanhá-la (Rogero et al., 2011).
Na Tabela 2 estão descritos os principais exames que o Biomédico pode realizar no atleta, com fins preventivo e/ou controle do overtraining.

Tabela 2. Exames Bioquímicos, Hematológicos e Imunológicos (adaptado de Alves, 2006).


2.6 Tratamento

           Diversas literaturas relatam que a melhor solução para o tratamento do overtraining é o repouso, sendo que este vai depender da seriedade da síndrome podendo variar de semanas a meses. Mesmo após o tempo determinado para a recuperação do atleta, alguns autores reportam que certos atletas apresentam distúrbios nas funções neuroendócrinas (Lehmann et al., 1993).
      Recuperação ativa e passiva é o melhor tratamento para a síndrome de ST. Deitar-se e não fazer nada faz parte do tratamento, mas diferentes atividades físicas como ginástica, pequenos jogos, corridas regenerativas, natação e um equilíbrio dietético possuem um importante papel no processo de recuperação. Técnicas psicorregulativas, como relaxamento e treinamento mental podem acelerar o processo de recuperação. Contudo, prevenir o acontecimento do overtraining seria a melhor opção (Samulski et al., 2005).

        2.7 Prevenção

        A seguir, são apresentadas recomendações para prevenir o ST em atletas, de acordo com Hooper et al., 1995:

  • Considerar que os atletas têm diferentes níveis de aptidão e tolerância à carga de treinamento;
  • Monitorar o desempenho mediante registro dos treinamentos e competições;
  • Aumentar a carga de treinamento de forma progressiva, utilizando para isso a periodização no estabelecimento dos exercícios. Não aumentando a carga de treinamento semanal por mais de 10%;
  • Propiciar as modificações da carga de treinamento, com reduções do volume, alterações da intensidade e evitando a monotonia nos treinamentos, priorizando os períodos de recuperação;
  • Estabelecer metas realistas e atrativas para o treinamento e competição;
  • Evitar competições em excesso, fazendo uma programação anual adequada;
  • Incentivar o desenvolvimento das capacidades psicológicas, fisiológicas e sociais mediante a manutenção de uma boa saúde e condição física, com controle dos fatores de estresse e treinamento equilibrados;
  • Manter uma dieta equilibrada, com larga variedade de nutrientes.


        Podemos destacar o Biomédico como o profissional com maior capacidade de atuar na prevenção, diagnóstico e controle do overtraining, sendo este um profissional generalista e multidisciplinar cada vez mais inserido no mercado de trabalho devido suas diversas ferramentas de atuação e desempenho apto a atuar na área esportiva.

  3. Conclusão

Prevenir, detectar todos os sinais e sintomas que antecedem o Overtraining é fundamental, uma vez a carreira do atleta e sua saúde podem ficar comprometidas dependendo da gravidade da síndrome. O Biomédico é um profissional considerado pioneiro na fisiologia do esporte, tendo grande importância na detecção e prevenção do overtraining, auxiliando com exames bioquímicos, hematológicos e imunológicos além de desenvolver um roteiro ideal de treinamento, com uma dieta equilibrada e treinos adequados, enfim trabalhando com cada atleta de acordo com sua capacidade, ajudando assim na saúde, na performance e em sua carreira.

    Referências Bibliográficas

ACKEL, C. R. Síndrome do Overtraining. Centro de Estortes de Fisilogia. São Paulo, 2003.
ALENCAR, T. A. M. D.; MATIAS, K. F. S.; SILVA, L. A. R. S.; PUCCA, M. M. Ovetraining/ Overuse em Ciclistas e seu retorno ao Esporte. Revista Movimenta. Góias, v. 3, n 1, 2010.
ALVES, R. N.; COSTA, L. O. P.; SAMULSKI, D. M. Monitoramento e Prevenção do Supertreinamento em Atletas. Revista Brasileira de Medicina Esporte. V. 12, n° 5, 2006.
COSTA, L. O. P.; SAMULSKI, D. M. Overtraining em Atletas de Alto Nível – Uma Revisão Literária. Revista brasileira de Ciência e Mov. Belo Horizonte, v. 13, p.123-134, 2005.
CUNHA, G. S.; RIBEIRO, J. L.; OLIVEIRA, A. R. Sobretreinamento: Teorias, Diagnóstico e Marcadores. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Rio Grande do Sul, v. 12, n. 5, 2006.
FREITAS, D. S.; MIRANDA, R.; FILHO, M. B. Marcadores Psicológico, Fisiológico e Bioquímico para Determinação dos Efeitos da Carga de Treino e do Overtraining. Revista Brasileira Cineantropom Desempenho Humano. Minais Gerais, v. 11 (4), o. 457-465, 2009.
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ROGERO, M. M.; MENDES, R. R.; TIRAPEGUI, J. aspectos Neuroendócrinos e Nutricionais em Atletas com Overtraining. Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental. São Paulo, p. 1-14, 2011.
SAMULSKI, D. M.; COSTA, L. O. C. Supertreinamento e Recuperação. Manual para educação física, psicologia e fisioterapia. São Paulo, p. 347-68, 2002.




Artigo desenvolvido na disciplina 'Biomedicina do Exercício no Esporte' pelos alunos Alex Giacominni, Édson da Silva Rezende, Suelen Cequinel Moraes sob a orientação do Prof. André Bellin Mariano, D.Sc.



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